Inactivism

February 1, 2007

Para não dizer que não falei de flores

Filed under: Literatura, Mulheres

Quer dizer: eu sempre escolhi minhas companhias pela beleza. Não me importa, contudo, que saibam ler. E isso é até melhor. Não gosto de alardear as minhas qualidades, mas as dela sim: ela é uma literata. A minha mulher escolhe bem seus livros. E, acima de tudo, ela despreza as minhas pretensões de literatura: ela sabe mais que eu.

Sentir-se inferiorizado por uma mulher mais culta que nós, homens, é um deleite para o masoquista intelectual. Fantasia: ela, nua, pisando no meu rosto e recitando essa poesia do risco, esporte radical dos namorados, “a fidelidade é, para a vida emocional, o que a coerência é para a vida do intelecto - simplesmente uma confissão de fracassos”.

Pois ela , vejam, não lê qualquer coisa.

December 2, 2006

Naïf

Filed under: Literatura

O Sérgio Rodrigues, do No Mínimo, escreve uma coisa da qual discordo:

Por questão de gosto e convicção, a literatura que mais me interessa nas últimas décadas é aquela que incorpora em alguma medida a auto-reflexão. Creio que os infinitos boicotes da narrativa promovidos no século passado nos deixam esta herança inescapável: como não questionar o narrador, qualquer narrador, sobre seus motivos, suas manipulações, o que ele está escondendo? Isso pode incluir ou não citações, intertextualidade, paródia – tudo o que uma caricatura crítica apressada acabou jogando na gaveta injuriosa do “pós-moderno”. O certo é que exclui a ingenuidade. Uma literatura que, a esta altura do furdunço, não põe em questão em algum grau a própria idéia de literatura, nem se assume jamais como artifício, arrisca-se a ser apenas arte naïf.

E discordo porque não acho necessário que o escritor explicite o mecanismo que torna possível a sua arte. Na verdade, penso que a literatura deve ser assim ou assado conforme o esforço que empregamos ao concebê-la. Quando um caminho é muito fácil, devemos escolher o outro. Simples assim. Parece-me que pôr em questão a própria idéia de literatura é o recurso mais cômodo: se tornou quase que intuitivo. Não tenho comparecido muito às letras de nossos dias, mas, pelo debate que as cerca, tenho a impressão de que a literatura que se assume como artifício é quase que consenso. Não me lembro de uma vez só em que eu tenha criado alguma ficção sem que me viesse à mente a idéia de refletir sobre o que eu fazia. Era uma tentação e tanto. Para mim, inventar uma história boa é e sempre foi infinitamente mais difícil que fazer referência à minha incapacidade de contá-la. Dessa experiência pessoal, induzo que o autor mais se abriga atrás da auto-referência do que se mostra, porque, no fim das contas, o artifício oculta a arte de contar uma boa história - ou seja, a essência do escritor. Fazer referência ao mecanismo da arte significa, nessa altura do campeonato, esconder a pobreza da própria criatividade. Uns desistem do ofício, outros escolhem a auto-referência. Simplifico? O Sérgio Rodrigues simplifica pelo lado do oposto.

Outra coisa que me incomoda: qual o problema de a arte ser ingênua? Os contemporâneos introjetaram de tal forma a cerebralidade, o intelecto, que se esqueceram de como se divertir. O Sérgio Rodrigues parece ser daqueles que pontuam suas leituras com arqueios de sobrancelha, o olhar de detetive, que pensam que qualquer escritor que não exiba o próprio engenho tenha falhado em “enganá-lo”.

- Não seja naïf, meu caro autor - diz Sérgio, enquanto expira a fumaça de seu cachimbo.

E fechou o livro, celebrando uma imensa satisfação consigo mesmo.

November 21, 2006

Meu primeiro meme

Filed under: Literatura

O Hermenauta me deu a agradabilíssima chance de falar sobre os meus preconceitos. Quando todo o mundo acha bacana se despir dos seus, exibir os nossos se torna mais interessante ainda. É bom ter um pouco de preconceito literário: há tantos livros bons que cortar um autor ruim da nossa lista chega a ser saudável.

Ele me questiona sobre três autores que desisti de ler - sim, trata-se de um meme -, e aqui estão eles. Chamo a atenção para a profundidade dos meus motivos.

1. Bukowski: o típico escritor que não leio porque não gosto dos seus leitores. É mais ou menos como a relação que tenho com a Legião Urbana. “Eu leio Bukowski” é a coisa mais enfadonha que uma mulher pode me dizer. E o que serve para Bukowski serve para “literatura beatnik”. Faça-me dormir dissertando sobre a vida e a obra de Jack Kerouac. Não li e não gostei. A propósito.

2. Gabriel García Marquez: Cem anos de solidão basta. Não gosto de leitura que exige muito da minha… paciência. Eu não preciso exaurir toda a literatura para saber que Cem anos… está em primeiro na lista dos livros mais chatos do universo.

3. Enrique Vila-Matas: não se trata de preconceito, mas é que li todos os livros dele publicados até agora. Esse espanhol é o escritor vivo que mais admiro. Quando ele lançar coisa nova, eu atualizo essa lista.

* * *

Sintam-se especialmente convidados a seguir o meme a Cássia Zanon, a Evelyn Petersen e o Rodrigo de Lemos.

October 9, 2006

Em que o blogueiro disserta – e falha – sobre o que considera um defeito em Breves entrevistas com homens hediondos, de David Foster Wallace

Filed under: Literatura

O estilo de um escritor precisa ser constante. Em caso contrário, poderá soar como um maneirismo ou uma veleidade autoral. A expressão deve continuar a mesma para que o leitor não veja nela uma afetação literária. Uma maneira permanente de se expressar, portanto, é o que constitui o verdadeiro estilo do artista.

Somente a permanência da expressão autoral não garante, contudo, a qualidade do texto. Um estilo é tanto mais superior quando mais natural soar. E o estilo é natural quando nos induz a pensar que a arte de escrever está ao alcance de todos e que não é necessário aprimorá-la com trabalho algum. Concluímos, à naturalidade de um estilo, que a arte é uma capacidade humana universal que está aí. Um bom estilo nos faz querer escrever – para quem tem pretensões, isso é óbvio –mas, sobretudo, nos persuade de que o autor não penou para expressá-lo.

Quando escrevemos, seja para que propósito for, fazemos muitas opções sobre o que não vamos dizer. Isto é, nos esforçamos. E, no momento em que optamos por não dizer isto, mas aquilo, nos seduz a idéia de ser admirados pela sofisticação da nossa escolha. Ora, é muito natural que a opção que fazemos seja justificada por um certo número de motivos, e mais natural ainda que queiramos reconhecimento pelo nosso mérito. E é precisamente ceder a essa tentação que estraga toda a naturalidade de um estilo: aquilo que deveria ser belo ou engenhoso por si só não o é porque o escritor resolveu comentá-lo.

Eu tenho certas restrições à literatura auto-referente, aquela que transforma em obra o processo mesmo da criação. Não gosto do escritor que deixa evidente no texto a contemplação do próprio intelecto. Reconhecer o brilho de quem quer que seja, esse não é meu o problema, tampouco aversão à arrogância, que considero uma qualidade. Mas o autor pretensioso, que não deixa meia dúzia de palavras correrem soltas sem um comentário que as justifique e que sublinhe o seu espírito agudo, é o que eu não suporto.

Breves entrevistas com homens hediondos, de David Foster Wallace, não é só metalinguagem, mas perde como um todo no pouco que dela tem. Dado a heterogeneidade dos contos do livro, não faz muito sentido falar em estilo: Foster Wallace é um virtuose, parece dominar qualquer forma de escrever. A questão da auto-referência, portanto, é marginal e não está nem perto de caracterizar Breves entrevistas… Mas o fato de não comprometer o conjunto não absolve Octeto, o cansativo texto em questão.

Talvez Foster Wallace se envaidecesse das próprias idéias, ou simplesmente receasse ser mal interpretado. Mas o fato mesmo é que Octeto é auto-referente. Ao lê-lo, sentimos um tédio imenso pela onipresença tirânica do seu criador. E não há altruísmo que salvasse Octeto: é impossível concebê-lo sem a figura do autor, como se pudéssemos depurá-lo, pois a metalinguagem é a sua razão mesma de ser. Se não houvesse auto-referência, não haveria Octeto.

E, para piorar a situação, Foster Wallace ainda debocha da própria metalinguagem, como se isso pudesse inocentá-lo do erro. Parece que o autor não teve coragem de correr os riscos que o uso da auto-referência envolve, imaginando que zombar de si mesmo bastasse para colocá-lo em uma posição isenta de críticas. Prevenir para a ruindade de uma anedota antes de contá-la não a torna boa. É simples assim, e Foster Wallace ignorou a regra.

Embora Breves entrevistas… seja uma livro muito bom, vou ilustrá-lo com um parágrafo particularmente enfadonho, no qual se percebe aquilo que eu disse.

Essa admissão intranarrativa tem a vantagem adicional de diluir ligeiramente a presunção de estruturar essas pequenas peças como “Quizzes”, mas tem também a desvantagem de flertar com uma auto-referência metaficcional – a saber, colocar dentro do próprio texto “Esta Pop Quiz não está funcionando” e “Mas uma punhalada na número 6” – coisa que no final dos anos 1990, quando até Wes Craven está capitalizando a auto-referência metaficcional, pode resultar frouxo, cansado, fácil, e corre também o risco de comprometer a estranha urgência sobre o que quer que você sinta que quer que as peças questionem em quem quer que as leia. Essa é uma urgência que você, o escritor de ficção, sente como muito… bem, urgente e quer que o leitor sinta também – o que equivale a dizer que de jeito nenhum você quer que um leitor saia achando que o ciclo é apenas algum engraçadinho exercício formal em estrutura interrogativa e em metatexto padrão.

“Ah, mas vejo um autor sagaz, pelo trecho que leio”. Pois bem: os comentários estão abertos para a argumentação.

September 19, 2006

Eu no Digestivo Cultural e um assuntinho chato

Filed under: Jornalismo, Meta, Literatura

O Julio Daio Borges colou um trecho do meu último post lá no blog do Digestivo Cultural, pelo que fico muito lisonjeado. De lambuja, linkou dentro do texto uma coluna do site em que Marcelo Maroldi se pergunta onde estão os novos escritores, descendo a lenha sem perdão. Não concordo nem discordo: falta-me conhecimento de causa. O que me incomoda é a aparente urgência que temos de discutir se esses autores são pertinentes ou não, com uma agressividade que acho desmedida, com aquela autoridade que parece dizer “fiquem nos seus lugares, novatos, e parem de escrever” – coisa que o texto de Maroldi ilustra. Em conclusão: é uma postura cansativa para um assunto que se tornou enfadonho à força da popularização.

Eu me divertiria um pouquinho se fossem dados nomes aos bois. Mas, tirando a Clarah Averbuck – originalíssimo! – nunca sabemos quem são os “novos e superficiais” escritores. Vamos! Coragem!

September 12, 2006

Estou com muito sono para pensar em um título bom*


Eu tenho um projeto de leitura: autores consagrados, pouca literatura contemporânea. Não que eu deplore obras de escritores iniciantes (essa aversão, de tão difundida, me parece antes um defeito que uma qualidade), mas tenho muito medo de errar e valorizo o dinheiro que gasto.

Uma das conseqüências desse projeto é que leio críticas como quem desfruta de uma obra em si mesma. E é aí que está o problema: resenhistas freqüentemente lançam mão de expressões que, de tão vulgarizadas, perderam completamente o sentido, não persuadem mais, e isso me deixa muito, mas muito irritado. Se fôssemos levar os críticos das nossas revistas impressas de cultura a sério, os lançamentos literários se encaixariam quase sempre no esquema da “prosa afiada”, “ácida” e blá blá blá. Parece que a beleza não é uma qualidade admirada pelos resenhistas de hoje em dia. Uma pena. É como se a sordidez e a contundência de um realismo chulo fossem as únicas coisas que interessassem. Os leitores que freqüentam os melhores blogs já devem ter ouvido essa lamentação uma dúzia de vezes. Endosso.

Quando não assinala a crueza da “prosa”, o resenhista parece não encontrar outro caminho senão aquele do adjetivo milagroso, que define o livro de uma maneira tal – “maravilhoso”, “delicioso”, “imperdível” etc. – que até parece que é a primeira vez que toma contato com alguma obra de relevância. A síntese absoluta do crítico sempre me pareceu a mais pobre expressão das suas sensações.

Em um texto chamado Confissões de um resenhista, George Orwell escreveu que criticar livros é uma tarefa que implica inventar reações a obras em relação às quais ele, o crítico, não sentiu espontaneamente nada. É uma farsa, diz ele, causada pelo embotamento de quem precisa escrever sobre muitos livros em um tempo exíguo. Por mais brilho que tenha o crítico, fatalmente fará uso daqueles curingas do elogio ou do desprezo literário. Eu reconheço que a resenha é uma atividade difícil, mas a comiseração pelo profissional da crítica não nos deve fazer admirar sua produção.

No entanto, a hiper-sensibilidade à crítica preguiçosa tem um lado bom: fico exultante quando encontro um texto bem escrito sobre literatura, e tenho tirado muito de minha felicidade dessas descobertas.

A inteligência e o cadafalso e outros ensaios, de Albert Camus, é o exemplo mais recente disso. Em primeiro lugar, o filósofo argumenta com placidez, sem resvalar para a irritação tão comum quando se trata de desqualificar. Embora quase todos os ensaios sejam avaliações positivas, Camus escreve algumas linhas em que critica este ou aquele escritor por comparação à obra ou ao autor que elogia, mas nunca se perdendo no desprezo pirotécnico, nervosinho. É injusto compará-los sem ressalvas, mas imaginem o Schopenhauer desta passagem (que cito porque me está mais à mão, aqui do lado, na minha estante):

É sempre um erro querer transferir para a literatura a tolerância que, na sociedade, é preciso ter com as pessoas estúpidas e descerebradas que se encontram por todo lado.

Pois o que anima Camus a desqualificar é muito mais brando, e, talvez por isso, soe um pouco mais permanente, duradouro. Naturalmente, o desprezo sem sutileza do filósofo alemão se tornou uma atitude alastrada demais hoje em dia, motivo pelo qual essa passagem de certa forma perdeu o vigor. Mas entendam que a intenção aqui é ilustrar um antípoda do estilo de Camus.

Em segundo lugar, quando enlevado por uma obra ou tentado a definir a atividade de quem a concebeu, a síntese do escritor argelino é sempre acompanhada de algum comentário original, e é neste ponto em que Camus brilha mais. A reação do autor é autêntica. Mas, mais importante que isso – porque não se deve tirar somente da sinceridade de um afeto o seu valor –, ela é intelectualizada. Camus não reage a um livro com um catálogo pré-determinado de sensações. O que escreve sobre o ofício do artista é engenhoso e o que diz a respeito da literatura parece flutuar no âmbito daquelas verdades belas e permanentes que nos fazem sentir uma gratidão profunda pela inteligência e capacidade de comunicação da humanidade. Quando eu lia o livro, me interrompia em certas passagens, olhava para algum ponto do meu quarto e pensava: que maldito filho da puta, mestre!, que escreveu tão bem o que eu queria ter escrito. Eu o invejei profundamente.

Seria desonesto retirar algumas passagens do contexto do livro e copiá-las aqui. Eu desejaria que o leitor deste blog acompanhasse o progresso da argumentação, para que não suspeitasse da grandeza do autor. Mas Camus não era mal frasista. Ele sabia adornar o texto com pequenas peças enfeitadas, algumas concluindo parágrafos, como é muito de meu gosto. Quando não punha toda a habilidade no espaço tão acanhado de uma frase, Camus o fazia em duas ou três, não importa. Por essa outra qualidade é que me permito citá-lo, sem maiores explicações, a não ser que vocês devem ignorar os nomes e atentar para o texto em si. De resto, espero que os leitores deste blog manuseiem o livro e sintam a emoção que senti.
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