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Eu tenho um projeto de leitura: autores consagrados, pouca literatura contemporânea. Não que eu deplore obras de escritores iniciantes (essa aversão, de tão difundida, me parece antes um defeito que uma qualidade), mas tenho muito medo de errar e valorizo o dinheiro que gasto.
Uma das conseqüências desse projeto é que leio críticas como quem desfruta de uma obra em si mesma. E é aí que está o problema: resenhistas freqüentemente lançam mão de expressões que, de tão vulgarizadas, perderam completamente o sentido, não persuadem mais, e isso me deixa muito, mas muito irritado. Se fôssemos levar os críticos das nossas revistas impressas de cultura a sério, os lançamentos literários se encaixariam quase sempre no esquema da “prosa afiada”, “ácida” e blá blá blá. Parece que a beleza não é uma qualidade admirada pelos resenhistas de hoje em dia. Uma pena. É como se a sordidez e a contundência de um realismo chulo fossem as únicas coisas que interessassem. Os leitores que freqüentam os melhores blogs já devem ter ouvido essa lamentação uma dúzia de vezes. Endosso.
Quando não assinala a crueza da “prosa”, o resenhista parece não encontrar outro caminho senão aquele do adjetivo milagroso, que define o livro de uma maneira tal – “maravilhoso”, “delicioso”, “imperdível” etc. – que até parece que é a primeira vez que toma contato com alguma obra de relevância. A síntese absoluta do crítico sempre me pareceu a mais pobre expressão das suas sensações.
Em um texto chamado Confissões de um resenhista, George Orwell escreveu que criticar livros é uma tarefa que implica inventar reações a obras em relação às quais ele, o crítico, não sentiu espontaneamente nada. É uma farsa, diz ele, causada pelo embotamento de quem precisa escrever sobre muitos livros em um tempo exíguo. Por mais brilho que tenha o crítico, fatalmente fará uso daqueles curingas do elogio ou do desprezo literário. Eu reconheço que a resenha é uma atividade difícil, mas a comiseração pelo profissional da crítica não nos deve fazer admirar sua produção.
No entanto, a hiper-sensibilidade à crítica preguiçosa tem um lado bom: fico exultante quando encontro um texto bem escrito sobre literatura, e tenho tirado muito de minha felicidade dessas descobertas.
A inteligência e o cadafalso e outros ensaios, de Albert Camus, é o exemplo mais recente disso. Em primeiro lugar, o filósofo argumenta com placidez, sem resvalar para a irritação tão comum quando se trata de desqualificar. Embora quase todos os ensaios sejam avaliações positivas, Camus escreve algumas linhas em que critica este ou aquele escritor por comparação à obra ou ao autor que elogia, mas nunca se perdendo no desprezo pirotécnico, nervosinho. É injusto compará-los sem ressalvas, mas imaginem o Schopenhauer desta passagem (que cito porque me está mais à mão, aqui do lado, na minha estante):
É sempre um erro querer transferir para a literatura a tolerância que, na sociedade, é preciso ter com as pessoas estúpidas e descerebradas que se encontram por todo lado.
Pois o que anima Camus a desqualificar é muito mais brando, e, talvez por isso, soe um pouco mais permanente, duradouro. Naturalmente, o desprezo sem sutileza do filósofo alemão se tornou uma atitude alastrada demais hoje em dia, motivo pelo qual essa passagem de certa forma perdeu o vigor. Mas entendam que a intenção aqui é ilustrar um antípoda do estilo de Camus.
Em segundo lugar, quando enlevado por uma obra ou tentado a definir a atividade de quem a concebeu, a síntese do escritor argelino é sempre acompanhada de algum comentário original, e é neste ponto em que Camus brilha mais. A reação do autor é autêntica. Mas, mais importante que isso – porque não se deve tirar somente da sinceridade de um afeto o seu valor –, ela é intelectualizada. Camus não reage a um livro com um catálogo pré-determinado de sensações. O que escreve sobre o ofício do artista é engenhoso e o que diz a respeito da literatura parece flutuar no âmbito daquelas verdades belas e permanentes que nos fazem sentir uma gratidão profunda pela inteligência e capacidade de comunicação da humanidade. Quando eu lia o livro, me interrompia em certas passagens, olhava para algum ponto do meu quarto e pensava: que maldito filho da puta, mestre!, que escreveu tão bem o que eu queria ter escrito. Eu o invejei profundamente.
Seria desonesto retirar algumas passagens do contexto do livro e copiá-las aqui. Eu desejaria que o leitor deste blog acompanhasse o progresso da argumentação, para que não suspeitasse da grandeza do autor. Mas Camus não era mal frasista. Ele sabia adornar o texto com pequenas peças enfeitadas, algumas concluindo parágrafos, como é muito de meu gosto. Quando não punha toda a habilidade no espaço tão acanhado de uma frase, Camus o fazia em duas ou três, não importa. Por essa outra qualidade é que me permito citá-lo, sem maiores explicações, a não ser que vocês devem ignorar os nomes e atentar para o texto em si. De resto, espero que os leitores deste blog manuseiem o livro e sintam a emoção que senti.
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