Inactivism

October 29, 2006

Ando tão grave pelas bancas da Feira do Livro

Filed under: Comportamento, Crônicas

Porto Alegre está em época de Feira do Livro. Como em todo evento intelectualizado, o público da Feira não é exatamente esclarecido. A multidão que acorre ao centro da cidade pode dar a idéia equivocada de que a capital gaúcha é literariamente privilegiada – e, orgulhosos, adoramos achar isso de nós próprios. Mas reuniões públicas que exaltam a instrução servem exatamente para o oposto, como é sabido.

E é estranho como eu me ofendo só pelo fato de as pessoas procurarem livros de nutrição ou “A história do sindicalismo no Brasil”. Sinto como se minha casa fosse invadida por bárbaros. Quer dizer, é um evento literário e as pessoas vão lá para se instruir?!

E não há fuga: na Feira do Livro, é impossível flertar. Eu levanto a lombada de um livro interessante – como esse Bernard Shaw velhíssimo que comprei por três reais – e aquela pequena linda do meu lado não me dá a mínima atenção. O acaso poderia consolar, mas nem isso: a visão periférica dela absolutamente não registra o livro revelado. E eu acabo ficando atônito, porque exibo voluntariamente o Bernard Shaw e não há uma centelha de brilho nos olhos de ninguém em volta. É um papel ridículo, mas fiquei lá, de balaio em balaio, levantando lombadas e lombadas, sem que… Esse est percipi, como dizia o bispo. Um ambiente intelectualmente débil favorece a noção de particularidade nos mais instruídos. É impossível não virar um misantropo individualista na Feira do Livro.

Sem falar na menina de óculos e discretamente bonita (como deveriam ser todas as mulheres), com mochila da universidade federal do estado, que se regozija entre as amigas em agredir uma edição do Onyx Lorenzoni porque “ai, gente, ele é do PFL!”. Deveria haver critérios para as mulheres usarem óculos. Como se fosse o reconhecimento de um mérito, o oftalmologista, erudito, questionaria as razões da miopia. Uma espécie de sabatina com o paciente. “Estragou os olhos lendo para as provas da faculdade de ciências sociais?” Não leva as lentes. “Cumpriu um número x de clássicos, mas não gosta de filosofia?” “Ok, leve os óculos, mas a armação será esta aqui, feinha”. Tudo seria mais fácil.

Então, eu abro O afeto que se encerra, do Paulo Francis, e leio, num minúsculo resumo de Crime e Castigo, a divisa do livro que ainda não escrevi (porque os autores mais pretensiosos definem antes a epígrafe e depois criam sob o seu peso): “vale tudo, se você agüenta a parada, intelectualmente”. Uma pequena felicidade capaz de perdoar toda a ignorância do mundo me faz acreditar que estou em um lugar interessante. Até que passa um marginal que joga meu livro longe anunciando que a Praça da Alfândega é originalmente ponto de meretrizes e drogados. Na Feira do Livro, uma boa ilusão dura mais ou menos uns cinco minutos.

8 Comments »

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  1. Já se vai o tempo em que eu ia a feiras literárias aqui em BH, mas já fui em algumas. E já que falou em flerte: é interessante como se flerta em lugares como esse. Tenta-se destacar dos demais puxando a lombada de um autor consagrado ou algo assim. E as moças de óculos: tantas superficiais; mas não todas, podendo alguma ser, no mínimo, uma inspiração.

    Comment by Edd — October 29, 2006 @

  2. Pô, Edd, você me pegou com as calças na mão: eu ainda estou editando o post!

    Leia novamente mais tarde, que alguns erros estão sendo corrigidos online.

    Comment by Editor — October 29, 2006 @

  3. Okay. hahah.

    Comment by Edd — October 29, 2006 @

  4. Para conseguir a atenção da garota vc deveria ter exclamado (em voz alta, fingindo estar falando consigo mesmo)algo como “Shaw, este GRANDE SOCIALISTA”. Se ela fosse uma esquerdinha burrinha (pleonarsmo)ficaria interessada, se fosse uma esquerdinha esperta (oxímoro), responderia desdenhosa: “Nah, estes Fabianos rosinhas”,empinaria o nariz e assim sairia de perto.

    Comment by Brunilda — October 30, 2006 @

  5. E pra quem compra livros durante todo o ano a Feira tmabém não é mais assim tão atrtiva. Até porque todas as bancas expõem os mesmos livros, esses mesmos que quem passa o resto do ano sem ler, gosta.

    Pelo menos este ano o Anonymus Gourmet não está figurando entre os mais vendidos! :o

    É aproveitar o clima! Pelo menos, para quem sabe procurar, ainda dá para respirar um pouco de cultura!

    Comment by Fernanda Souza — November 4, 2006 @

  6. Há uns quinze anos atrás eu estava na Dazibao de Ipanema quando entrou…a Vera Fischer. A Dazibao não era tão grande assim que Vera Fischer, no auge da beleza, não fosse notada. Imediatamente levantei, entre outras coisas, a lombada de um clássico qualquer, apontei-a na direção daqueles olhos de deusa, mas debalde _ não fui notado. Raios.

    Por outro lado, também não consegui arranjar concentração suficiente para registrar o que é que ela esteve lendo.

    Mudando (só um pouco) de assunto, há livrarias e livrarias. Curiosamente, o melhor livro existente em uma Siciliano de shopping não tem o sabor de uma obra menor encontrada na Livraria da Travessa. Pode não parecer, mas eu sofro com essas coisas.

    Comment by Hermenauta — November 5, 2006 @

  7. Que dizer das palestras sobre história, religião, ou os debates? Fui numa sobre fundamentalismo e achei que alguém fosse explodir de júbilo por estar à frente de um “PhD” que poderia muito bem ser substituído por um livro – não dele, claro.

    Comment by Guilherme — November 11, 2006 @

  8. claro! como poderia vc esperar que numa sociedade com tantos critérios a serem discutidos como prioridades. A educação é um exemplo.
    Muitas pessoas não tem acesso e nem sabem quem são os grandes escritores e quais suas obras. O povo só tem que recorrer a culinária.
    sobre a moça, vc é casado?

    Comment by Fabiana Aparecida — March 30, 2007 @

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